domingo, 15 de setembro de 2013

O DIA EM QUE VI O DECLÍNIO DA HUMANIDADE


   Lembro me bem como aconteceu, era tarde de uma sexta-feira, eu tinha onze anos e brincava com minha irmã de treze, nossos pais haviam ido ao mercado, nossa casa ficava em um sítio a cinco quilômetros da cidade e ao lado passava um riacho onde eu e minha irmã gostávamos de nadar nas tardes quentes.
   Meu pai se chamava Augusto, era um homem sério e educado, geneticista e pesquisador na área da regeneração de tecidos, na época ele estava trabalhando em algo que poderia revolucionar a ciência, lembro-me dele me contando que no futuro seria possível regenerar qualquer parte do corpo humano, desde órgãos internos até membros por completo, eu não fazia ideia da importância daquilo mas ficava feliz mesmo assim, afinal, meu pai era um grande cientista.
   Minha mãe que se chamava Denise, também era cientista mas ela trabalhava mais na área da neurologia, era incrível como ela entendia do cérebro humano, certa vez ela até levou um exemplar deste tão complexo órgão para que pudesse nos mostrar cada parte e explicar suas respectivas funções, foi meio nojento mas foi legal, o que mais me lembro dela é o jeito com que sorria, parecia não existir problema que resistisse após ela sorrir, meu pai dizia que ele havia se apaixonado por um sorriso que habitava a face de uma bela mulher.
   Minha irmã, Catarine, apesar de mais velha, era mais baixinha do que eu, mesmo assim ela sempre me defendia quando eu me metia em alguma briga, e isso acontecia com frequência, lembro me dela dizer que eu só casaria com uma menina escolhida por ela.
    Meu nome é Daniel, na época a minha única preocupação era passar de ano e ficar com a minha família nos raros momentos em que os quatro estávamos juntos, por nenhum momento passou em minha cabeça a possibilidade de que tudo terminasse do jeito que hoje se encontra.
 
Meus pais chegaram do mercado por volta das quatro e meia, porém, dava para perceber que eles estavam um pouco nervosos, mas isso ficou bem claro quando meu pai mandou que a nossa babá arrumasse uma mala com algumas roupas minhas e da Catarine, e que após isso ela estaria dispensada e poderia tirar o final de semana de folga. Desta forma fomos no carro do meu pai até o laboratório que ficava a duas horas de viagem, ao chegar no local reparamos na agitação de toda a equipe de cientistas, eles pareciam desesperados e eu não entendia o motivo então comecei a reparar em alguns monitores em que se passavam imagens que me interessaram, eram seres humanoides que matavam e se alimentavam de humanos, e por mais que se aparentassem com a nossa espécie eles agiam como animais selvagens.
   Inocentemente perguntei:
-- Que filme é esse?
-- Não é filme-- me respondeu um senhor de jaleco, que assistia aquelas cenas com um ar de quem não acreditava no que via.
-- O que é então?-- perguntei-lhe.
-- São aqueles malditos americanos-- exclamou ele.
   Naquele mesmo momento entrou um senhor de terno, cabelos levemente grisalhos e cara de mau, puxei pela memória e lembrei que ele é o chefe dos meus pais, Dr. Lopez.
-- Senhores!-- começou ele-- Fundamos este laboratório com a intenção de promover a ciência e o conhecimento, mas como todos sabem o Dr. Eugene J. Allen era na verdade um espião americano infiltrado, ele roubou os nossos resultado a três anos atrás e agora estão usando aquilo que criamos com a ideia de salvar o mundo para destruí-lo. Aqueles filhos-da-mãe criaram monstros que ninguém pode controlar, nem mesmo eles, quando alguma parte destes monstros é cortada da origem a outro mostro semelhante, eles não pensam, não sentem dor, só sentem um desejo profundo de se alimentar unica e exclusivamente de carne humana. Temo, senhores, que este seja o fim da raça humana, a primeira vez que tivemos notícias destes monstros foi a doze dias, eles invadiram uma cidade no sul da Península Arábica, eram cerca de quatorze seres, atualmente temos notícias de cerca de vinte e três mil, e os números aumentam em uma velocidade incrível...
  Um dos cientistas que estava ao telefone interrompeu o discuso do Dr. Lopez
-- Senhor, temos uma confirmação sobre o método de multiplicação dos monstros...
--Pois fale! -- gritou o chefe dos cientistas.
-- Após se alimentarem eles parecem digerir e absorver rapidamente a carne humana, então isso faz com que eles cresçam muito rápido porém quando eles chegam a um certo tamanho, simplesmente se dividem... eles se reproduzem por mitose...
   Meu pai deu um soco na parede.
-- queles malditos, usando as minhas pesquisas para promover a destruição da raça humana...
  Outro cientista, desta vez um jovem loiro, desligando o telefone falou:
--As noticias só pioram, capitais e outras metrópoles foram atacadas pelos mesmos seres, existem relatos de que form jogados de aviões militares com bandeiras de mais de vinte países diferentes. Cidades brasileiras como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte estão sob ataque, pelo ritmo serão necessárias apenas três horas para que sejam totalmente dizimadas.
   Olhei para o lado e vi minha mãe que esfregava as mãos e mantinha um ar de nervosismo, se entender o tava acontecendo, perguntei-lhe:
-- Mãe, o que é dizimada!
-- Nada, meu bem...-- disse ela disfarçando o nervosismo com um sorriso-- Vai dar tudo certo, confia na mamãe.
  No meio daquela confusão eu comi alguma coisa que uma das assistentes me ofereceu, sentei em um cantinho da parede e adormeci. Acordei algum tempo depois, com minha mãe me sacudindo, ela gritava desesperadamente, notei que os outros também estavam mais exaltados do que algum tempo atrás, meu pai me pagou pela mão e me levou para o subterrâneo, haviam lá alguns equipamentos que eu nunca tinha visto, meu pai pediu para que eu entrasse em uma espécie de tubo metálico com uma parte lateral feita de vidro transparente, enquanto entrava ouvi ele dizer à minha mãe:
-- Cuide desta parte enquanto vou lá em cima dá uma olhada na situação.
   Minha mãe apenas assentiu com a cabeça, meu pai foi em direção às escadas enquanto ela mexia em uns botões esquisitos, ouvimos um grito do meu pai, no segundo seguinte a cabeça dele rolava escada abaixo, minha mãe pegou na minha mão, olhou em meus olhos e disse chorando:
--Não deixe que a nossa espécie chegue ao fim!
   Em seguida ela fechou a portinhola, puxou uma alavanca e sorriu pra mim.
   Começou então a subir uma fumaça gelada, me senti tonto, apareceu então vindo da escada um ser como os que eu tinha visto no monitor, e em um movimento rápido arrancou a cabeça da minha mãe, tentei fazer algo mas meu corpo não reagia, já não sentia as minhas próprias pernas e tudo que podia fazer era olhar aquele monstro comer o cadáver da minha mãe, fui ficando cada vez mais tonto até que perdi totalmente a consciência.

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